sexta-feira, 23 de março de 2012

Um som moderno da pós-antiguidade

Como tem show deles hoje, resolvi resgatar um texto que escrevi sobre o Iconilli que foi usado no portfólio da banda por uns tempos. Não sei se ainda usam...


Iconili – se juntássemos cinco coelhos instrumentistas em um ambiente urbano e caótico, teríamos uma banda que definitivamente não seria esta. Coelhos são muito bonitinhos. Em italiano, Il Conigli significa “os coelhos” – a grafia abrasileirada e truncada vai de encontro com a proposta da banda, seja lá qual for ela. Os tempos de pós-modernidade têm dessas coisas: uma banda sui generis - com um nome estranho e musicas que te levam do êxtase a aflição de quase parir o perna-longa – que louvavelmente não se prostitui comercialmente, mas, pelo contrario, busca a essência pura do rock’n’roll gutural e do jazz (genial) flutuante e sem rumo. Iconili é Iconili. É um rock-jazz-samba-bossa-groove-barulho, amor demais e ódio também, tudo junto. É saxofone, guitarra, distorção, bateria, teremim, xilofone e mais guitarra. É um parto sem anestesia de um som docilmente cruel. É um The Doors que não é bem Doors, sem Jim Morrison, e com coelhos. Coelhos que devem ter comido uma cenoura meio azeda. Ou bem ácida. Se não forem os tempos modernos, ou a cenoura, não existe explicação para a origem de musicas com nomes esdrúxulos como “Coulrofobia” e (a contagiante) “Funeral do Pato Donald”. Iconili é indefinível. É uma experiência transcendental, uma busca pelo inconsciente coletivo e pelo profano-sagrado pedestal de onde a arte da musica tropeçou e continua caindo desde o século passado. É a sensação de um improviso interminável e da descoberta de uma nova nota a cada segundo. Às vezes parece que o show deles esta sendo tocado ao contrario, que ensaiaram o final e estão inventando o começo das musicas na hora. Il Conigli é tudo isso. E nada disso. Iconili é indefinível. Indecifrável. Indiscutível.


Felipe Canêdo – 09/11/2009

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Quando cheguei por aqui...

Esse é um texto que fiz para uma disciplina que fiquei devendo na faculdade...


Quando cheguei por aqui, era todo expectativas e perguntas de um calouro seminal. Quando cheguei por aqui, não sabia de muita coisa, e na verdade nem queria saber. Vencer a barreira do vestibular e alcançar o tão sonhado olimpo: a universidade — era vencer o tempo de sofrimento e autoflagelação da escola e adentrar na grande orgia libertina que certamente me esperava na depravada vida acadêmica que eu queria levar. E isso me libertava. Quando cheguei por aqui, eu queria transar todos aqueles estereótipos que carregava na mochila da escola sobre faculdade, festas, bandas, literatura, arte, trabalho e até a obscura e atemorizante vida adulta.


Mas não foi bem assim, é evidente. Quando cheguei por aqui, carregava na alma uma semente de insaciável sede. Sede de perguntar mais, sede de entender o mundo, e sede de ser alguém que até hoje não descobri quem. A semente germinou e ganhou algumas folhas avermelhadas na militância política e outras nas belas letras. Larguei a publicidade e fui estudar jornalismo. Me encantei com as utopias bonitas que pintavam um mundo mais justo e melhor e me indignei com os horrores que descobria no planeta com as lentes que o jornalismo me emprestava. Me apaixonei com o jornalismo e cultivo ainda um flerte inacabável com a literatura e com o cinema. A semente virou uma muda, e seguiu se desenvolvendo em direção à luz, seja qual for essa maldita luz que buscamos.


A busca continuou durante longos e numerosos semestres de faculdade entre livros bolorentos da biblioteca, porres intermináveis discutindo as questões fundamentais da humanidade e projetos mirabolantes elaborados nos cantos sujos do Diretório Acadêmico José Milton Santos. E agora, que a visão do passaporte para o olimpo do mundo do trabalho — o bacharelado — está bem à vista, a busca continua. Permanece. Persiste. E prossegue. Por mais que às vezes ache que consegui fazê-la cessar por algum tempo. Ela volta impassível e me atormenta.


Então, enfim, não mudei muito: quando cheguei por aqui, era todo expectativas e perguntas. E daqui a pouco, sairei com novas expectativas e novas perguntas. Guardei na minha pastinha da faculdade novos estereótipos que quero transar futuramente, e continuo procurando alguma coisa que ainda não sei o que é. A faculdade foi apenas uma estrada que tive de trilhar em direção ao desconhecido e em busca daquela luz incógnita que todos procuramos. Na verdade, o fundamental foi o que aprendi pelo caminho, muito mais no mundo da vida do que na vida do mundo acadêmico. Mas valeu a pena. Afinal, acho que a faculdade de jornalismo ensina mesmo é a perguntar, não é?

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A luta continua, ainda não sei aonde...

Confesso que a história das chibatadas na Praça 7 me desanimou  um partido que se preze, que tem história, propostas e projetos não pode fazer intervenções despolitizadas e... ridículas assim. Mas é evidente que não foi apenas isso, segue:


Entrei de novo naquela sala cheia de cartazes que já me fora tão familiar e senti uma estranheza nova. Foi como se eu não quisesse permanecer ali por mais nenhum segundo: mas eu estava decidido, me identifiquei para a moça sentada à mesa e fiz logo o pedido. Na verdade não foi tão difícil quanto pensei que seria.
          Agora sinto que terminei uma longa caminhada: me desfiliei do Partido dos Trabalhadores, me desvencilhando de uma parte importante na minha vida nos últimos anos. Aprendi muito, dormi pouco e me frustrei algumas vezes. Saio sem remorso, mas também sem animosidades. É quase a suposição impossível de um término de relacionamento indolor.
          Ingressei no PT bastante idealista e aos poucos fui sendo ensinado a ser mais realista e mais pragmático. Hoje vejo que me tiraram um pouco da poesia, mas no final das contas acho que o PT também foi perdendo sua poesia com o tempo. Na verdade sinto que fui eu quem ficou parado e que foi o partido que se afastou do que eu acreditava. É o que sinto... Talvez eu o visse com olhos diferentes quando entrei.
          Posso dizer também que me desiludi com a política como um todo. E isso é mérito do PT também, apesar de o mundo político brasileiro ser imundo por si só, vi a sujeira e falta de ética de perto em várias situações, e se as juventudes partidárias têm práticas condenáveis, não consigo imaginar o que os graúdos fazem — e pior, o que as novas lideranças farão quando chegarem lá.
          Podem me dizer que não, e que tudo caminha para um futuro mais luminoso, mas o que vejo são partidos brasileiros de situação e de oposição em um jogo sórdido de disputa do poder pura e simplesmente. O PT não tem mais cojones para sustentar propostas que não sejam consensuais e indolores. O enfrentamento é mínimo: aprovar CPMF e DRU. O que a oposição tem a dizer sobre isso? Nada, já bebeu desses vinhos. Comissão da Verdade? bom, basta ver o que a Onu tem a dizer sobre o assunto. E assim segue: a ideia é incomodar o mínimo possível para centrar esforços na manutenção do poder. E que projetos e princípios naufraguem para lá, longe.
          Acredito sinceramente em pessoas bem intencionadas — muitas — no PT e na política brasileira. Mas vendo a fotografia de longe, não consigo enxergar uma guinada de direção que tire o Partido dos Trabalhadores do rumo de se tornar um PMDB. Contudo, não quero seguir a regra de sair gritando e bater a porta como fazem os que se desfiliam. Apenas não quero mais fazer parte disso tudo.
          Cabe frisar que sempre participei de uma corrente minoritária no partido, que tem vários problemas e não me parece ser capaz de chacoalhar a organização como ela merece para que seja capaz de moralizar a política e ditar um novo projeto. Mas que tem propostas alternativas. Apenas não me parece estar realmente carregando todas intenções que prega. Abri meu coração nesta carta, e o que estou dizendo aqui é uma prestação de contas com quem eu militei, com quem quiser saber por que eu sai, e, sobretudo, comigo mesmo. De todo modo, desejo que a turma competente que me acompanhou nessa jornada siga em frente, sempre carregando os ideais de justiça social, honestidade e humanidade. E que eu esteja errado, que a rapaziada tome conta do partido, que a rapaziada tome conta da política e que ajude a fazer do Brasil um país melhor. Eu sigo em frente, fazendo minha parte. Não falo isso em uma perspectiva individualista e ilusória, como as que muitas vezes refutei. Não acredito em soluções individuais para o grande problema coletivo que vivemos. Sigo em frente fazendo o que acho certo no momento, dando minha contribuição da maneira que posso, e me mantendo afastado do que me fazia mal.
          Quando o camarada que me deu a ficha de desfiliação para assinar me perguntou por que eu estava fazendo aquilo, não consegui responder. Ele insistiu, “desanimou”, perguntou, ao que respondi simplesmente “desanimei”. E é verdade, desanimei. E não consigo fazer as coisas pela metade, nem insistir no que não acredito. Não espero que me entendam, apenas que me respeitem. Assinei a ficha e sai. Me sinto mais leve.

          Um grande abraço.

domingo, 25 de setembro de 2011

To see a world in a grain of sand
And heaven in a wild flower
Hold infinity in the palm of your hand
And eternity in an hour.

William Blake

domingo, 18 de setembro de 2011

O tempo que não se perdeu

Não se contam as ilusões
nem as compreensões amargas,
não há medida para contar
o que não podia acontecer-nos,
o que nos rondou como besouro
sem que tivéssemos percebido
do que estávamos perdendo.

Perder até perder a vida
é viver a vida e a morte
não são coisas passageiras
mas sim constantes, evidentes,
a continuidade do vazio,
o silêncio em que cai tudo
e por fim nós mesmos caímos.

Ai! o que esteve tão cerca
sem que pudéssemos saber.
Ai! o que não podia ser
quando talvez podia ser.

Tantas asas circunvoaram
as montanhas da tristeza
e tantas rodas sacudiram
a estrela do destino
que já não há nada a perder.

Terminaram-se os lamentos.

Pablo Neruda
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